Manifesto

O departamento de fotografia é uma das áreas onde a desigualdade de gênero no cinema brasileiro se apresenta de forma mais evidente. De acordo com a ANCINE, em 2022, dos longas-metragens exibidos, 180 tiveram a fotografia exclusivamente assinadas por homens cisgênero brancos, enquanto apenas 27 foram por mulheres cisgênero brancas.

As práticas do departamento de fotografia não são neutras. As escolhas de enquadramento, o modo de iluminar, o que evidenciar, como contar uma história, a organização de equipe e a dinâmica de trabalho estão inseridas em relações sociais mais amplas. Elas podem reproduzir ou desconstruir pontos de vista. Nesse sentido, disputar espaço no departamento de fotografia também é disputar formas de construção de narrativa e criação de imagens.

Dados revelam como a falta de equidade atravessa toda a cadeia audiovisual, da realização dos filmes até a distribuição. Entre 2018 e 2022, homens cisgêneros brancos ocuparam 59,1% das vagas de direção principal em projetos contratados pelo FSA. Estudos mostram que os editais que previram cotas de políticas afirmativas aumentaram a presença de mulheres e pessoas negras na área da Direção.

A descentralização dos recursos impacta diretamente na diversidade da composição das equipes. A participação de pessoas negras em funções de liderança é significativamente maior quando os projetos vêm de fora do eixo Sul-Sudeste. Em 2021, as regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste apresentaram a maior participação de pessoas negras no total de empregos formais do audiovisual, enquanto nas regiões Sul e Sudeste houve o predomínio de pessoas brancas. Ao mesmo tempo, a ausência de dados raciais específicos para equipes técnicas, incluindo fotografia, limita a análise estatística e contribui para a manutenção de zonas de invisibilidade.

No caso de pessoas trans, os dados disponíveis mostram uma presença ainda mais reduzida nas funções de liderança, o que reforça a necessidade de políticas específicas e de reconhecimento dessas trajetórias, que já existem. Diferente do cenário de invisibilidade apontado nas produções de ficção comercial, o que vemos hoje é que, por exemplo, mulheres negras e travestis já ocupam a direção de fotografia de obras fundamentais. Estas profissionais, que historicamente “despontavam” em documentários, curtas-metragens e videoclipes, agora assinam também a direção de fotografia de longas-metragens e séries lançados comercialmente e premiados internacionalmente. Essas trajetórias não surgem por concessão, mas pela atuação e permanência dessas profissionais no mercado. Ao mesmo tempo, os processos de articulação coletiva entre grupos e associações, como APAN, APTA, BRADA, Rede Katahirine entre outras, são importantes para tensionar o campo, ampliar a visibilidade e disputar as condições de acesso e reconhecimento de todes.

A maioria das pesquisas, mesmo restrita às chefias de Direção, Fotografia e Arte, já revela a desigualdade que se agrava quando aprofundamos o olhar. Nós, do DAFB - Coletivo de Mulheres e Dissidentes de Gênero do Departamento de Fotografia do Audiovisual Brasileiro, realizamos um mapeamento que não se limita somente à direção de fotografia. Buscamos evidenciar a diversidade de profissionais em todas as funções da área: assistência de câmera, elétrica, maquinaria, equipe de pós, still entre outras. Esse trabalho não é apenas um levantamento de informações, mas é uma forma de enfrentar a invisibilidade que causa a falsa ideia de ausência desses profissionais.

Em 2016, quando uma grande produtora divulgou uma lista da chamada “nova geração” de diretores de fotografia composta exclusivamente por homens cisgêneros brancos, e se justificou alegando uma suposta escassez de mulheres e pessoas trans e negras na área, ficou explícito que o problema não estava na falta de profissionais, mas nos critérios de reconhecimento e visibilidade. Então nos organizamos enquanto coletivo, para nos articular e questionar as formas como o mercado audiovisual se estrutura.

Desde então, ampliamos nossa rede, tanto em número de profissionais quanto em abrangência territorial. É inegável que existem mulheres cis, trans, travestis, transmasculinos, pessoas negras e pessoas com deficiência atuantes no audiovisual brasileiro. O rápido crescimento do coletivo mostra que a exclusão não é resultado da falta de formação ou de atuação, mas de barreiras estruturais que começam na contratação, na circulação e na legitimação de trajetórias diversas.

Partimos da ideia de coletivo, onde não há essência partilhada e sim diferenças que nos unem. Os dados indicam que, na ausência de políticas específicas e diversas, a estrutura dominante tende a aumentar. Nossa atuação se fundamenta em um feminismo contracolonial e interseccional, em diálogo com o feminismo negro e o transfeminismo. É nas diferenças que construímos nossa força política e articulamos ações que atravessam gênero, raça, classe e território.

Por fim, o DAFB é um espaço político comprometido com a luta por equidade no departamento de fotografia do cinema e do audiovisual brasileiro. Atuamos para tornar visível quem sempre esteve trabalhando, produzindo memória, reunindo informações e fortalecendo conexões para que a transformação do setor continue acontecendo. A nossa presença não é uma tendência passageira ou uma resposta a uma "moda" do mercado. Não reivindicamos espaço por circunstância, mas porque fazemos parte do audiovisual. Seguiremos organizades, produzindo conhecimento, fortalecendo redes e disputando as estruturas que ainda determinam quem pode criar imagens, ocupar espaços de decisão e construir as narrativas do nosso tempo.